Blog deJoyline Macedo

Nutricionista · 18062

Acredito que todo ser humano merece ter a comida como fonte de prazer, não culpa ou angústia.

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As pessoas estão desconectadas da comida - e isso se reflete nas crianças

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

10 anos trabalhando com Nutrição me fizeram sentir o encantamento de aprender coisas incríveis sobre o corpo humano, seu desenvolvimento e também sobre os alimentos. Entretanto, quando me deparo com a prática dessa Ciência tão maravilhosa, um sentimento de impotência tem tomado conta de mim. No início, a insegurança própria da inexperiência causava medo. Mas nesse momento, quanto mais estudo, mais fico aflita pela humanidade estar cada ano mais distante do que ela precisava, que não era muito. E entendo, me encontro vez por outra retornando a esse looping porque uma força puxa de volta, por não exigir esforço, só se deixar levar pelo fluxo. Vou explicar melhor. 

Anos atrás você até ouvia propaganda na TV de máquina de fazer sucos, iogurte natural, livro com receitas naturais para cada problema de saúde e na hora do perrengue, ainda se recorria muito aos mais velhos na família para receitas caseiras e quando não dava o resultado esperado, era a hora de ir num médico.

Mas as coisas mudaram completamente em pouco tempo com o avanço da internet, smartphones, redes sociais, agora IA e nunca antes se viu tanta enxurrada de informações sobre saúde. Melhor permanecer na ignorância? Jamais! Senão ainda estaríamos perdendo bebês por falta de higiene com o cordão umbilical. Os contras nesse contexto são as muitas informações falsas disseminadas por pessoas não qualificadas e, ao mesmo tempo, informações controversas entre os próprios profissionais de saúde, não apenas nutricionistas, em relação a alimentos, inclusive se respaldando em artigos científicos. Como duas informações opostas para um mesmo contexto podem estar certas? Não faz sentido, e sem consensos voltamos ao "cada um faz o que achar melhor e, se funcionar pra você, é o que importa". Ficam todos perdidos.

O que vemos como resultado são pessoas tão "informadas" sobre nutrientes e elementos "tóxicos ou inflamatórios", que ficaram com medo das comidas. O que elas comem (fit, low carb, paleo, etc) é diferente do que servem aos filhos. Devido ao trabalho, a companhia das crianças na mesa é um desenho animado ou um cuidador com pressa. Solidão e sobrecarga materna colocam milhares de mulheres num modo "sobrevivência", fazendo ou não fazendo recebem cobrança e críticas na família e nas redes sociais. No fim, elas terceirizam o preparo das refeições, compram lanches industrializados práticos, alimentam e arrumam seus filhos para escola e engolem a comida enquanto fazem suas atividades, isso quando conseguem comer, senão passam direto porque já nem percebem mais os sinais internos de fome.

Para nós adultos o dia não se divide mais nas pausas para a alimentação em família (maior e mais importante momento de aprendizado alimentar das crianças). Parece que cada vez mais a hora da refeição é só um inconveniente que precisa ser atendido porque senão vem uma dor de cabeça, mas que pode ser driblada com um amendoim ou coxinha qualquer. A qualidade da alimentação dos filhos é priorizada, existe uma preocupação sincera dos pais por entenderem que eles estão em fase de crescimento. Mas não é nenhuma novidade que, por mais que se ensine, no fim, a chance maior é de eles imitarem o que veem. As crianças também não gostam de comer sozinhas. Elas ficam hipnotizadas pela alta dopamina que encontram nas telas para aceitar engolir, porque comer é chato, uma obrigação que tem que parar pra fazer, uma atividade que só faz "interromper" a brincadeira. Nota alguma similaridade?

Estamos desconectados da comida, tentando compensar com suplementos caros, e as crianças vão no mesmo caminho, porque como elas não tem prazer em comer, buscam cada vez mais alimentos industrializados hiperpalatáveis para compensar o tédio que é ter que parar de se divertir para se alimentar, quando não, serem alimentadas, sem nem fazerem ideia do que está no prato. Na maioria dos casos é apenas uma escolha? Pior que não. Os pais de verdade gostariam muito de poder trabalhar menos horas, para passar mais tempo em casa, poder se dedicar mais aos filhos, incluindo o preparo de refeições e as pausas tranquilas para "comer junto na mesa", mas não está fácil nem mesmo trabalho que pague as contas, quanto mais plano de saúde, academia, terapia, comer fora, passear... Está tudo muito caro e o reflexo é que não está fácil conseguir trabalho que permita tempo suficiente para a reconexão com a comida. 

É óbvio que não está no controle da humanidade resolver problemas como o preço dos alimentos, que também é reflexo do aquecimento global sobre as safras. Mas o que eu e você podemos fazer é nos negar a adotar a atitude do "quem pariu Mateus que balance".  Ser mais empáticos e oferecer mais suporte a pais próximos a nós, pelo menos, até porque para eles não é fácil ter que escolher a dedo com quem compartilhar o cuidado de seus filhos, mesmo que para descansarem ou para prepararem uma refeição que seria uma memória afetiva para seus pequenos, por causa do perigo que está tão frequente de predadores sexuais. Para se sentirem mais seguros, talvez possa se oferecer para olhar um pouco as crianças na casa dos pais mesmo, usar babá eletrônica ou mantê-los informados sobre o que a criança está fazendo por meio de vídeos, fotos ou áudios que os tranquilizem. 

Cada vez mais as famílias estão menores, mais distantes e mais isoladas em apartamentos. Então estamos precisando muito uns dos outros, e os pais sem família próxima ou com família emocionalmente instável, precisam mais ainda de uma rede de apoio, para não se sentirem sozinhos na tarefa desafiadora que é criar um pequeno humano. "Eles que quiseram, então problema deles?" É, dá pra entender de onde estão surgindo espaços onde se proíbem crianças. Isso deveria ser inadmissível! Todo mundo já foi criança! Se alguém que pensa assim se abrisse para interagir 3 dias com uma criança, talvez conseguisse enxergar quanta coisa poderia aprender com ela e o quanto ela acrescenta em leveza e alegria ao mundo chato dos adultos. Minha dica para hoje é, experimente conhecer uma família com criança e passar 5 minutos escutando ela contar histórias com empolgação! Duvido não sair pelo menos um sorriso e se alegrar não é perda de tempo! Para reconectar adultos e crianças com a comida, precisamos compartilhar mais, ser mais aldeia, pensar mais nos outros.

Atinja os seus objetivos com o melhor acompanhamento!
Joyline Macedo
Joyline Macedo
Nutricionista · 18062
Acredito que todo ser humano merece ter a comida como fonte de prazer, não culpa ou angústia.
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